Notícia  /  24.02.2026

COLECIONISMO 12

Para a história da filateria olímpica portuguesa

Portugal inicia o seu caminho olímpico em 1912, com uma participação de seis atletas, mas antes deste caminho atlético, temos o político, que acontece numa das visitas feitas a Paris pelo Rei D. Carlos, em 1906, onde se cruza com Pierre de Coubertin, que desafia a Casa Real Portuguesa, como uma das mais antigas da Europa, a fazer-se representar junto do Comité Olímpico Internacional (COI), o que acontece com o convite dirigido pelo Rei ao médico da Casa Real, António de Lencastre.

Esta é história política do nascimento do Olimpismo em Portugal, em 1906, mas o seu caminho olímpico foi longo, pois só em 1912 acontece a primeira representação, composta por seis atletas, a qual infelizmente ficou marcada pelo falecimento do maratonista Francisco Lázaro, após o quilómetro 30 da maratona, em plena cidade de Estocolmo. Também neste ano de 1912 nasceu o Comité Olímpico Português, com data de fundação a 30 de abril.

Este é o início da história olímpica portuguesa e é por aqui que vou começar a falar em filatelia olímpica em Portugal.

O selo olímpico português aparece pela primeira vez em 1928, com duas surpresas: foi o primeiro país não organizador a emitir um selo olímpico e pela primeira vez aparecem desenhados os anéis olímpicos, numa inspiração do aguarelista Roque Gameiro (Escola de Belas Artes de Leipzig). Esta emissão foi destinada à angariação de fundos, para apoiar a deslocação dos atletas portugueses aos Jogos da IX Olimpíada, na cidade de Amesterdão...

«Considerando que essa representação deve ser condigna e que para ela todos devem concorrer com a sua quota mínima, visto que interessa a todos os portugueses uma propaganda inteligente do país» – foi nesta perspetiva que o Comité Olímpico Português solicitou autorização à Administração dos Serviços Postais da época para a criação de um selo com característica olímpicas, a ser utilizado em datas a definir, em toda a correspondência nacional, cuja receita reverteria na sua totalidade ao apoio da delegação portuguesa a caminho dos Jogos Olímpicos de Amesterdão.

Na ata n.º 30, de 23 de fevereiro de 1928, do livro de reuniões do Comité Olímpico Português, encontra-se registada a informação particular do administrador dos Correio e Telégrafos de que a proposta do COP tinha aprovação do ministro do Comércio, ata que tem a particularidade de ter deixado assente que parte do dinheiro da venda do selo olímpico seria destinada à contratação de um treinador estrangeiro para desenvolver o atletismo, com vista a Amesterdão-1928.

A emissão do primeiro selo olímpico português foi autorizada unicamente para os dias 22 a 24 de maio de 1928, através do Decreto-lei n.º 15.265, assinado em 22 de março de 1928, o qual definiu todos os pormenores deste selo e as condições de circulação. Ainda assim, são conhecidos selos com data de 25 de maio.

Do projeto inicial desta emissão olímpica foi projetado produzir dois milhões de selos da taxa de 15 centavos e 300 mil selos na taxa de multa de 30 centavos, o que de facto aconteceu, com algumas diferenças por razões de fabrico o que ficou em:

. taxa de 15c – 2.000.016 selos, equivalente a 300.024$00 (escudos);

. taxa de 30c – 300.246 selos, equivalente a 90.072$00 (escudos).

A esta emissão correspondia, assim, um total de receita de 390.096$00 (escudos), segundo documentos da Imprensa Nacional Casa da Moeda, mas a realidade ficou muito longe destes valores, como é apresentado no balanço das contas do COP referente ao ano de 1928, onde se referencia a importância total apurada da venda destes selos olímpicos em 61.011$20.

Esta é a história do primeiro selo olímpico português, em 1928. Somente em 1964, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Portugal voltou a emitir uma série olímpica, constituída por quatro selos e marca postal comemorativa de primeiro dia (FDC).

A partir dos Jogos de Tóquio, os CTT Correios de Portugal emitiram de quatro em quatro anos a sua série olímpica, composta variavelmente por 2, 3 ou 4 selos, com o respetivo FDC e marca postal comemorativa, até aos Jogos de Londres de 2012. Nas edições seguintes dos Jogos da Olimpíada (2016, 2020, 2024) não houve emissões portuguesas, pois os CTT Correios de Portugal e o Comité Olímpico de Portugal não se entenderam relativamente aos «royalties». O grande «hobby» da filatelia olímpica portuguesa, e não só, está pelas portas da morte. É assim o mundo dos negócios.

Em 2016, os CTT Correios de Portugal emitiram um bilhete-postal / inteiro postal, com taxa N20g, em homenagem a Mário Moniz Pereira, o «Senhor Atletismo», licenciado pelo Instituo Nacional de Educação Física, treinador responsável por grandes atletas olímpicos portugueses, como Fernando Mamede, Carlos Lopes, entre outros. Além de treinador, Moniz Pereira também se notabilizou como atleta em algumas modalidades, tendo, no entanto, sido um exímio músico e compositor, autor de muitas canções portuguesas e grande tocador de piano (40 anos de canções).

Moniz Pereira nasceu em 22 de fevereiro de 1921 e faleceu em 31 de julho 2016, com 95 anos, tendo sido agraciado com a Medalha de Mérito Desportivo (1976 e 1984), a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (1980), a Comenda da Ordem de Instrução Pública (1984) e a Ordem Olímpica (1988), além de ter sido condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1991).

Em 2017, a Academia Olímpica de Portugal e os CTT Correios de Portugal, assinalaram o 31.º aniversário da AOP com a criação de um «Meu Selo», com taxa N20g e marca postal comemorativa do primeiro dia de emissão, acompanhado de sobrescrito comemorativo, o qual esteve disponível na Estação de Lisboa/ Restauradores (CTT.LISBOA 2017.12.09).

Numa época de todos nós conhecida e sofrida pela Covid, a Associação Pan-ibérica de Academias Olímpicas organizou um seminário virtual, com a participação de várias academias olímpicas, entre as quais a AOP, e cujas sessões tiveram lugar nos dias 4, 11 e 18 de julho de 2020. Na ocasião, os CTT Correios de Portugal ofereceram uma marca postal comemorativa, sendo a única marca postal olímpica conhecida com o símbolo do coronavírus. A marca esteve disponível na loja dos CTT na Ajuda (Lisboa).

A Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal (AAOP), fundada em 8 de julho de 2003 com a missão de defender, divulgar e promover os valores do Movimento Olímpico, promoveu em 2020, com os CTT Correios de Portugal, a emissão de um bilhete-postal / inteiro postal de homenagem a uma das figuras do Olimpismo do passado, António Augusto da Silva Martins, médico e investigador companheiro de Egas Moniz, notável militar participante como voluntário na I Guerra Mundial (1914-1918), integrado no Corpo Expedicionário Português como tenente-médico.

António da Silva Martins nasceu em Abrantes em 1892 e faleceu em 1930. Participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, e de Paris, em 1924, e ainda nos Jogos Intercalares de Paris, em 1919.

Em 2024, ano de Jogos Olímpicos, José Manuel Constantino, presidente do COP, lançou à Ordem dos Médicos o desafio de dar a conhecer dezoito atletas olímpicos portugueses que se dedicaram à medicina. O resultado foi um livro que conta as dificuldades, os conflitos, as paixões e os momentos de glória de oito mulheres e dez homens – atletas olímpicos médicos.

Nesse ano, os Jogos Olímpicos tiveram lugar na nossa vizinha França, mas nem assim os CTT e o COP conseguiram entender-se. Com a parceria do Canal Panda, os Correios lançaram um álbum tríptico exclusivo, muito interessante e didático, com figuras do Panda e os Amigos à Conquista de Medalhas, em bonitos 18 selos autocolantes, com taxa N20g.

Legendas

Fig. 1 – Rei D. Carlos, primeiro olímpico português

Fig. 2 – Dr. António Lencastre, primeiro representante do COI em Portugal

Fig. 3 – Carta enviada por António de Lencastre ao Barão Pierre de Coubertin em 9 de junho de 1906

Fig. 4 – Postal máximo, reproduzindo o painel de azulejos, numa parede lateral do Lisboa Ginásio Clube, indicando a Rua Francisco Lázaro, em Lisboa

Fig. 5 – Carta FDC, postalizada em Lisboa para Lourenço Marques, com marca postal comemorativa do primeiro dia de emissão

Fig. 6 – Moniz Pereira, Senhor Atletismo

Fig. 7 – Marca postal assinalando a abertura no Museu Nacional do Desporto, em Lisboa, do espólio desportivo e artístico de Mário Moniz Pereira, reconstituindo a sua sala de trabalho

Fig. 8 – Sobrescrito de primeiro dia de emissão, postalizado em Lisboa com destino à Moita, com código de barras a vermelho

Fig. 9 – A única marca postal olímpica conhecida com o símbolo da covid

Fig. 10 – Carta postalizada para a Moita com o código de barras a vermelho

Fig. 11 – António Martins, desfilando com a bandeira de Portugal na abertura dos Jogos Olímpicos Paris-1924, no Estádio Colombes

Fig. 12 – Sobrescrito selado com selo comemorativo da série «Importância da Vacinação», obliterado com marca postal comemorativa do lançamento do livro «Atletas Olímpicos Médicos»

Fig. 13 – Álbum editado pelos CTT, para a colocação dos 18 selos

Fig. 14 – Panda e os Seus Amigos nos Jogos Olímpicos. Folhinha tríplica com os 18 selos autocolantes

Fernando Xavier Martins

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